segunda-feira, 15 de julho de 2013

O GRITO - Apresentação de Carroça com Nêgo no Grita



           
 Um événement: foi isso que aconteceu no Anjo da Guarda domingo, 14 de Julho - data interessante para refletir sobre revolução, liberdade, fraternidade e igualdade.  Existia ali um quê de revolução, ou de reboliço. Duas companhias de teatro se apresentando na periferia de São Luís com os espetáculos A Carroça é Nossa (Xama Teatro) e Nego Cosme (Cena Aberta). Grupos parceiros da Petite Mort.
A empreitada do Grupo Grita (que cedeu o espaço e os técnicos) nos possibilita refletir sobre as alternativas para fruição da produção teatral no Maranhão - terra em que a medida peça por espectador quadrado ainda causa um pouco de contradição.  
O mecanismo pecinha + divulgação = espero, Deus, que eles venham, já cai um pouco por terra. Se quisermos atingir um público que não vê teatro como uma necessidade, como um bem, ou seja, se não podemos, no Maranhão, dizer “Bicho, para onde vamos hoje? Cinema? Bar? Teatro?”, a dinâmica precisa mudar.  A boa solução é juntar os grupos e fazer eventos dessa natureza. Vários espetáculos num só dia. Três dias de espetáculos. Uma oficina ali, outra lá, e toma mais espetáculo!
A tática: ganhar pelo cansaço. A palavra é forte, sei... Mas vivemos numa época em que a constância dita as regras. Novelas, geralmente, não são boas, mas estão lá, todo santo dia. É uma “malhação” que se faz no espírito. Tratando-se de esporte, portanto, o que vale? Frequência e explosão - o happening, que traduzido no inglês fica mais ou menos assim: “um tipo de exposição que gera um certo bafafá”.
       

Essa é a dinâmica do mundo midiático que nós temos que assimilar. Muitas pessoas só conseguem serem ouvidas quando se unem para falar a mesma frase e por muito tempo - e bem alto! Vimos isso acontecer no Brasil, quando o “gigante” acordou, não é, gigante? Ei, gigante! Ei! Acorda! Ah, desculpe, tive a impressão que vossa senhoria estava cochilando...

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Tra il Cane i il Lupo ou Entre o Cão e o Lobo

  


 Talvez na velhice,
Quando não mais meus pés tocarem o chão,
Quando este corpo não mais suportar essa alma que se evade aos poucos,
Poderei ver  assim, as luzes no final da tarde escondidas tra il cane  i il lupo ( entre o cão e o lobo).

 Luis Ferreira - para Dona Derrisão


Em algum lugar onde as imagens não mudam...


sábado, 8 de junho de 2013

OLHA QUEM ESTÁ LÁ! COITADO. NA SARJETA...


       Caderno de Direção #12

      A imagem quando se desgruda do fundo fica assim: igual à bituca de cigarro. Não é mais cigarro. É bituca. É lixo. E lixo são pedaços de coisas ou coisas em pedaços.

Não é comum ver um papai Noel jogado por onde corre esgoto, rato e toda sorte de porcaria. Confesso que, quando olhei, achei engraçado, diabolicamente engraçado:

- Eu sempre me perguntei: o que fazia o papai Noel no período do São João?...  

Todavia, como o Diabo é também um amante da filosofia (Fausto é testemunha), logo tirei o riso do canto da boca para analisar mais, digamos, dialeticamente:

- Aquilo era um símbolo jogado fora sem mais nem menos. Ali não tinha nenhuma mensagem de Natal, embora estejamos em pleno São João, o que, sem dúvida, já é o suficiente para pararmos por aqui, mas não! Espere... Aqui existe um paralelo entre o Alzheimer (o tema da nossa pecinha, lembrou?) e o nosso mundo moderno:
-Se, na caduquice, a memória se apaga gradualmente, na contemporaneidade, os nossos símbolos estão também se esfumaçando. O resultado em comum: cada instante é um instante novo, separado do que veio antes e do que virá depois.

Cada símbolo tem a essência de uma cultura e, se toda a simbologia de um povo se concentra em um jogador de futebol ou naquele pop star de calças cerradas, não é pelo fato deste povo não ter essência. Longe disso. Ele tem essência, o problema é que ela evapora muito rápido. Tão rápido, que parece que não há essência alguma ali, assim como não há memória alguma em um portador em estágio terminal do Mal de Alzheimer.

O tempo não perdoa. O tempo sem amarras na memória, menos ainda.

domingo, 2 de junho de 2013

DONA L. DONA N.


Contornos que se confundem. Olhando, já não sei mais o que é mão e o que é rosto. Em determinado momento, a gente se torna mais contorno do que preenchimento. Viramos aquilo que nos cerca. Viramos esboços tão cheios de linhas que parecemos outro desenho. Na verdade é outro desenho. É bom abordar a questão assim. O contorno muda o formato.Devemos pensar de outro jeito para contornar a situação. Voltaremos ao estágio inicial ou começaremos a partir daqui?  


quinta-feira, 9 de maio de 2013

JOGO ABERTO

Caderno de Direção # 11
          
Nuno e Luís em processo de escrita

          O texto dramático é corpo. Faz parte do jogo. Escrever, antes de tudo, é criar uma lógica entre os signos, dos quais a palavra é apenas um entre muitos. Daí existir a dramaturgia do ator, a dramaturgia da luz, a dramaturgia da música etc. 

         Nosso problema: o texto baseado no jogo de réplica sobre réplica não nos serve completamente. O personagem principal vai perdendo a memória e ficando débil. Exploramos os quiproquós e a comédia dos erros. Mas estes, ao longo de toda uma peça, podem gerar uma tensão por parte das pessoas que cuidam dos doentes e dos especialistas. Este drama não é apenas nosso, é um drama alheio também: precisamos tratá-lo com cuidado para não cair em polêmicas desnecessárias. 

          Nossa solução: à medida que o personagem principal perde a consciência e a memória, o texto perde as amarras das réplicas e busca novas maneiras de dialogar. Primeira e terceira pessoa se entrecruzam. Discursos se sobrepõem formando não mais o conflito, mas a paisagem da situação dramática. O texto se acaba, para dar origem a um diálogo de sons com dois personagens querendo lembrar uma música esquecida, a saber, “Dona Derrisão”. 

          O texto está em aberto. As possibilidades, antes limitadas em função dos sintomas da doença, agora são inúmeras. O objetivo atual é aprimorar nosso método baseado em tensões e ritmos para compor/escrever as cenas que ainda faltam, utilizando os depoimentos, textos científicos, memória do ator, reportagens, criando através de improvisos...


Tabuleiro dos Níveis de Expressão baseado em quatro situações: tensão , contração, expansão e dispersão. Em breve postaremos mais sobre isso.
           A vantagem desse trabalho de parto invertido é que o texto, a cena, as marcas e a luz, às vezes, surgem de uma só vez: acasos vestidos de coincidências. Os resultados hão de aparecer, é certo. Até lá, ensaios e mais ensaios.